Em seu primeiro show no Nordeste, Liniker desembarcou em João Pessoa (PB) na última sexta-feira pré-carnavalesca, dia 05, para uma show especial no Rec-Beat Apresenta, extensão do Festival Rec-Beat de música alternativa, que já acontece há 21 anos na cidade do Recife (PE).  Falando sobre o show na capital paraibana, Liniker revela ter sentido uma energia única, diferente de todos os outros lugares. Segundo ela, a proximidade, o carinho e a entrega calorosa do público fizeram a diferença. “Muito gostoso ver como aqui é receptivo, como é quente, como a troca de energia é por inteiro”, destacou.

Com o visual característico e muito marcante, a artista de 20 anos, negra, alta, simpática e receptiva, se apresenta com brincos grandes e chamativos, geralmente com alguma simbologia afro-étnica, batom lilás em cor viva e brilho, cabelo estilo black, com dreads bem desenhados, com ou sem turbante (“depende da ocasião”, diz ela), um short ou saia longa. Esses elementos femininos contrastam com outros traços corporais, como a barba rala em formato de cadeado e os músculos rijos típicos de um corpo masculino.

Nascido Liniker de Barros Ferreira Campos (o nome é inspirado em  Gary Lineker, um famoso jogador de futebol britânico), natural de Araraquara, interior de São Paulo, ele – ou ela – afirma que essa construção estética (ou desconstrução) do corpo  “é um processo super natural em minha vida”. Diz que já vem assimilando esse visual há um tempo. “Já tem uns três anos que eu estou me desconstruindo a tudo: eu não preciso ser homem, não preciso ser mulher, eu posso usar o que eu quiser, posso estar a vontade comigo, e se eu estiver as coisas vão fluir”, sintetiza a artista, cujo gênero é flutuante e varia de acordo com a disposição interior, com a vontade de ser o máximo autêntica e leal a si mesma.

O visual impacta de imediato pela notória singularidade e quebra da norma padrão. Mas, para muito além da estética física, está a potência vocal e a cadência sonora do canto de Liniker – que é singular e transcende qualquer arquétipo. No palco, a artista transborda a si mesma e ao público com sua interpretação musical única. Cantando uma espécie de Black Music suingado à brasileira, ela revela influências do Soul, Jazz, Samba Rock, Funk, MPB e outros gêneros, e também, referências de artistas como Nina Simone, Elza Soares, Tim Maia, Clube do Balanço, Etta James dentre vários outros nomes. “Mas a minha maior influência é a minha família, tendo em vista a construção de música”, revela Liniker, que nasceu numa família de músicos, com tios sambistas. Essa peculiaridade familiar a fez tomar contato com vários matizes musicais e descobrir sua própria identidade artística.

Foto: Rafael Passos

Foto: Rafael Passos

Estudante de teatro, até o ano passado trabalhava como atendente de telemarketing e, num ato de ousadia, decidiu largar tudo para se dedicar a música, decisão que teve o apoio da família, dos colegas e professores da faculdade, amigos e pessoas próximas. Não esperava que o sucesso fosse tão rápido e tão estrondoso. O vídeo da canção autoral Zero, um hit romântico lançado em outubro de 2015, já tem mais de 1 milhão de visualizações no YouTube. Ela comemora, mas com o pé no chão e consciência, sem esquecer das origens. “Eu estou ali (no palco) não é só por mim, estou ali pela minha família, pela minha mãe – mulher solteira que foi sempre empregada doméstica -, estou ali pelos meus tios músicos que não fizeram tanto sucesso e que não tiveram tanta oportunidade. Eu estou ali por todo mundo.”

O Segue o Som conversou com Liniker no Slow Hostel, local que ela e a banda (Liniker e os Caramelos) ficaram hospedados em João Pessoa. Na Paraíba, eles ainda fizeram show em Campina Grande, no sábado, dia 06, depois seguiram para Recife (PE) no domingo, onde se apresentam hoje, dia 09, na edição oficial do Rec-Beat. Numa conversa espontânea e descontraída, ela falou de forma muito aberta sobre quase tudo. Veio do almoço direto para entrevista, deixando evidente, pelo visual, que a persona do palco e do cotidiano são uma só. “Como vocês podem ver, eu sou desse jeito no meu dia a dia” disse com ar de convicção. “Não poderia ser um produto que me faria me vestir daquele jeito, só para vender”, reforçou ela, que respondeu a todas as perguntas com essa mesma atitude, segura e assertiva.

Segue o Som: Liniker, é a primeira vez que você faz apresentações pelo Nordeste. O que deu para sentir de diferente das outras regiões do Brasil?

Liniker: Nossa, é surreal. Na hora você já percebe que a energia é diferente. Aqui tem uma coisa próxima (entre o público e artista). Todo mundo é carinhoso e, ao mesmo tempo, é muito desconstruído o fato de que algumas pessoas tem o costume de transformar o artista em um mito, como se ele não fosse de verdade. E tocando na festa, ontem, a galera estava super próxima, conversando comigo. Eu não era só o Liniker cantor, era também o Liniker que estava ali, curtindo a festa. Então, é muito gostoso ver como aqui é receptivo, como é quente, como a troca de energia é por inteiro… O pessoal está disposto a amar o artista quando gostam.

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Foto : Divulgação

SOS: Como surgiu essa proposta estética/sonora, a qual você se apropria do Soul e da Black Music, e dá uma cara brasileira?

 L: Eu acho que é de muitas referências de tudo que eu já ouvi na vida. Minha família sempre estava ligada a tudo o quanto era tipo de música. Os meus tios são compositores (sambistas), a minha mãe também tem uma grande influência com o samba rock… E eu cresci ouvindo muita coisa em casa: de Tim Maia a Clube do Balanço. Então, essa bagagem familiar para criar uma rede sonora, de referência, foi muito importante. E depois quando você cresce, começa a ter curiosidades por outras coisas. Mas a minha maior influência é a minha família, tendo em vista a construção de música.  

SOS: Você já declarou que o seu som tem influências como Nina Simone e Clube do Balanço. Como essas influências musicais, se adequam ao gênero pessoa/ artista?

L: Tem a Nina Simone e a Etta James, que para mim são as “tops” na minha vida. E o que aproxima o meu trabalho dos delas, ou o que eu tento ser próximo dos delas, é a forma natural que elas cantam e a forma visceral que elas narram o que estão sentindo. Você vê que não é um “artista de produto”. Elas cantam sentimento. Elas falam o que elas estão sentindo. Isso se aproxima muito do que eu estou tentando fazer, para não ser um artista que faz um produto que é legal, e aí esse produto bomba. Não é isso. Eu quero ir além. Eu quero mostrar o que eu sinto, o que eu sou, falando naquela música, o que é o Liniker cantando Remonta, Zero… Você acaba não se distanciando e sim, se aproximando. Acho que é até por isso que o pessoal acaba gostando tanto, porquê tem uma proximidade ali. Tipo, as coisas que eu falei em Zero, outras pessoas já passaram ou estão passando. Acho que o tem de mais próximo do nosso trabalho é como a gente tenta passar o nosso sentimento de forma verdadeira.

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Foto: Pedro Neri

SOS: Você falou da Nina Simone e de outras referências. E é perceptível, no repertório do teu show, influências do reggae e do jazz. Você tem alguma relação com Billie Holiday e o Bob Marley? Isso tem alguma reverberação no seu trabalho?

L: O Marley nem tanto. Eu ouço muito pouco reggae. Mas jazz sim. Eu acho que é uma mistura de muita coisa: tem jazz, funk, soul, black music, MPB… é uma mistura de tudo. Mas Billie Holiday eu acho ela incrível, maravilhosa! Não tem como não gostar.

SOS: E o EP, Cru?

L: Cru foi o meu primeiro trabalho. Eu comecei a pensar ele em 2014, e me juntei com os meninos da banda em dezembro, para apresentar a proposta e mostrar como eu queria fazer. Aí, ficamos de dezembro a julho, pensando como seriam os arranjos das músicas, pensando nos meios de divulgação – como a gente iria se inserir no mercado de uma forma independente e que a gente não precisasse de muita coisa e que alcançasse um número de pessoas. Gravamos no dia 30 de julho de 2015 e lançamos no dia 16 de outubro. Então, tem quatro meses de lançamento e está sendo surpreendente para nós, porque não esperávamos esse boom. Achamos que só seriam 20 mil visualizações no You Tube, que a gente faria alguns shows ali perto de casa (risos). E de repente você vê que vai além, em outra proporção. Este ano já é o terceiro estado que a gente toca, estamos no Nordeste e isto está sendo incrível. Tocamos no Circo Voador, no mês passado, no Rio… Não dá para acreditar.

SOS: O Circo Voador é um templo sagrado da música.

L: É. Eu tenho acreditado, tenho botado fé que é isso. Graças a Deus que a gente está sendo abençoado – e que continue assim (risos). Não é um movimento só nosso, tem tanta coisa boa aparecendo. Tanta gente boa mostrando o que sente.

SOS: Tem alguém do circuito independente que você curte?

L: Muitos. Tem As Bahias e a Cozinha Mineira que são incríveis, a Tárcia Reis, que é uma rapper  de Jacareí, interior de São Paulo, e ela é um rap-jazz, uma coisa negra, de rua. Gosto de Tulipa Ruiz, já “namoro” ela faz um tempão, desde o primeiro álbum. Tem o Johnny Hooker e ele vai estar no Festival Rec-Beat. Gosto muito do trabalho dele. Eu ouço Aláfia que é uma banda de black music do interior de São Paulo…

SOS: Funk Como Le Gusta?  

L: Maravilhosos. Vocês já ouviram? Nossa, o show deles é “fuderoso”, como vocês mesmos dizem aqui. Adorei esta palavra (risos).

SOS: Tem o novo álbum da Elza Soares que é outra referência…

L: Eu esqueci de falar da Elza, gente! A Mulher do Fim do Mundo! Como é que a gente vive sem Elza Soares agora? Ela veio nos dar um “samba” assim ó,  “aprendam como se faz”. Elza Soares é maravilhosa.

“Eu quero ir além. Eu quero mostrar o que eu sinto, o que eu sou, falando naquela música”.

SOS: Explica a história de Zero.

L: Zero? (Liniker fica tímido) O que você quer saber de Zero? (risos).

SOS: Qual inspiração que você teve para criar a canção…

L: Me fizeram fazer essa música… (uma longa pausa) É uma pessoa muito especial e está na minha vida ainda e passamos por momentos incríveis. E às vezes nós vemos que um relacionamento não é pra ser como a gente queria que fosse. E aí, a gente precisa pegar o que vale mais de tudo isso, construir de uma forma que a gente entenda que a vida vai continuar e seguir. Porque eu achava que eu não podia ter tudo da mesma pessoa – e eu posso. Eu trabalhava em um Telemarketing em São Caetano, no ano passado, fui dar uma volta na cidade e parei numa praça, sentei a letra veio inteira (na mente). Ela era maior, Zero tem uns pedaços que eu não coloquei. Tem uns pedaços que eu fiz conto, poesia… E aí, eu fiz duas cópias: uma eu guardei e a outra eu pensei “vou sentar no lado de alguém, deixar essa letra e sair”. E aí cheguei numa praça, tinha uma menina sentada e eu sentei do lado dela, deixei a letra e sai. Depois que Zero teve esse boom, eu pensei: “pra quê você fez isso, Liniker? Se esta pessoa tiver Zero ela…” (risos). Mas a letra já está registrada com o meu nome.

SOS: Linker, você falou que não esperava o sucesso que você teve. A tua figura/persona é incomum: um artista negro que tem essa coisa que pode ser o Liniker ou a Liniker, que canta um black music e que faz um hit romântico que está bombando. Você não acha que essa tua peculiaridade, que não existe na cena musical, talvez tenha sido um diferencial que também alavancou o teu trabalho?

L: Acho que as pessoas não estavam acostumadas a isso – ou estavam e não esperavam que fosse desta forma. E como isto já é um processo super natural em minha vida, uma forma que eu já escolhi para viver há muito tempo, já tem uns três anos que eu estou me desconstruindo a tudo: eu não preciso ser homem, não preciso ser mulher. Eu posso usar o que eu quiser, posso estar a vontade comigo, e se eu estiver, as coisas vão fluir. Então, a partir do momento em que eu apareço da forma que eu me sinto natural, do jeito que eu sou de verdade e me coloco numa cena que já tem tanta gente fazendo coisas, isso dá um choque mesmo: “dá onde vem esse cara?”, “de onde vem tudo isso?”. Tenho dito que isso tudo vem do que eu sou. Eu apareço daquele jeito no vídeo porque foi a forma que achei de ser o mais natural de mim. Não poderia ser um produto que me faria me vestir daquele jeito, só para vender. Não é isso que eu acredito. Eu sou desse jeito no meu dia a dia. Então, às vezes as pessoas falam “por quê este menino está de turbante hoje?”. Não preciso disso, gente. Me visto da forma que eu quero. Acho que isso causa uma curiosidade de saber quem é esse cara, quem é esse ser…

SOS: As pessoas são muito ligadas na questão de gênero, e a música transcende isso. A tua verdade musical é aquela de que você ouve a música, com qualquer pessoa em qualquer lugar. Qual a energia que você aplica na tua verdade musical para o trabalho sair tão autêntico?

L: A verdade musical vem de tudo que eu já vivi na vida, tudo que eu sou, tudo o que eu quero ser, tudo o que eu estou almejando ser e passar para as pessoas. Eu estou ali (no palco) não é só por mim, estou ali pela minha família, pela minha mãe – mulher solteira que foi sempre empregada doméstica – , to ali pelos meus tios músicos que não fizeram tanto sucesso e que não tiveram tanta oportunidade. Eu estou ali por todo mundo. Estou tentando levantar bandeiras que todo mundo se sinta representado e que são verdade para mim também. O que for natural pra mim, vai ser verdade para quem me ouvir, porque vai estar sendo eu de verdade.

Com colaboração de:
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[person image=”http://segueosom.com/wp-content/uploads/2015/10/LAF7568-206×300.jpg” name=”Sandro Alves de França” subtitle=”” link=”” link_text=”” link_target=”_self”]É graduado em Letras pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), estudante de Jornalismo da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), professor de Literatura e produtor cultural independente. É também Editor Geral do site sobre cinema Janela 7, repórter e colunista do portal de notícias Paraíba Já.[/person]
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