Foto: Inês Bonduki/Divulgação

Explicar parece bem mais difícil do que ouvir. Não só parece. É mesmo. Ao ouvir qualquer música do repertório da Filarmônica de Pasárgada é de se esperar o inusitado em algum momento. O som de algum instrumento não muito comum, versos irônicos, críticas sutis e metáforas fazem parte das composições de Marcelo Segreto, vocalista e um dos líderes da banda paulistana. Mas não é só isso. As lições eruditas aprendidas enquanto estudava na USP foram além do clássico: as músicas têm total apelo popular com um bom humor afiado nos mais diversos gêneros entre rock, jazz, eletrônica, funk, samba e MPB. Isso tudo sem abrir mão dos experimentalismos.

Foto: Bruno Naoki Okubo/Divulgação

A Filarmônica, citada em algumas matérias como “vanguarda paulistana” e formada desde 2008, se mantém num universo poético da vida cotidiana. Os vocais são divididos entre Segreto e Paula Mirhan, que também é atriz. O resultado da música e performance dos dois é de uma sonoridade ímpar. As relações na atualidade são o plano de fundo para as composições que trazem referências como Noel Rosa, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Caetano Veloso, Edith Piaf, Chico Buarque, Gal Costa e Tom Zé, com quem já trocaram figurinhas em vários trabalhos.

Talvez a maior contribuição da banda seja o mais simples de explicar. O humor das composições são de uma inteligência e simplicidade que o registro se torna uma reflexão obrigatória quase imperceptível do nosso cotidiano. Entre as músicas que mais tiveram retorno de público e se tornaram clipes estão “O seu tipo” e “Fiu fiu”. A primeira remete aos estereótipos urbanos e as barreiras para encontrar a pessoa amada, alternando entre os vocais de Marcelo e Paula. Foi a música que me fisgou por um acaso pelo YouTube. A segunda, com batida de funk, é uma obra-prima. Tanto a música como o clipe. A forte composição retrata o constante assédio vivido diariamente pelas mulheres no ponto de vista feminino. A visualidade do clipe juntamente com as metáforas em cada pixel que conta com as participações de Laerte – cartunista e chargista -, e Tom Zé gritam para a sociedade através do funk carioca. É a minha preferida.

Foto: Inês Bonduki/Divulgação

Foto: Inês Bonduki/Divulgação

O grupo tem dois cd’s gravados: o de estreia, O Hábito da Força, e o sucessor, Rádio Lixão. A produção dos dois trabalhos ficou por conta de Alê Siqueira, que já atuou em projetos com Maria Bethânia e Tribalistas. Além de Marcelo e Paula, a banda também conta com Fernando Henna (piano, acordeon e eletrônica), Ivan Ferreira (fagote), Miguel Antar (contrabaixo), Renata Garcia (clarinete), Rubens de Oliveira (bateria e percussão) e Sérgio Abdalla (técnico de som e live-electronics). Vale lembrar que eles irão gravar um novo álbum em abril deste ano, com previsão de lançamento em setembro. Os álbuns estão totalmente disponíveis pelo Spotify, YouTube e para download no site oficial da banda.

É bem provável que mesmo tentando, não consegui explicar bem o que esse grupo é capaz de fazer. Mas tudo bem. E é exatamente por isso que vale a pena ouvir inúmeras vezes as canções da banda. A cada composição, por mais simples que pareça, nos diverte e propõe um novo olhar, tanto melódico quanto ao que nos cerca. Assim como diria Manuel Bandeira, e estendo o convite adaptado: vamos embora para um show da Filarmônica de Pasárgada.

Igor Duarte
Sobre o autor

Um dos inúmeros baianos que nasceram em Pernambuco e ainda se consideram paraibanos. Jornalista formado pela Universidade Federal da Paraíba e que finge saber alguma coisa, inclusive tocar violão. Com ouvidos bem atentos de System of a Down até a Banda Sedutora.

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