Lembro da primeira vez em que ouvi alguém proferir a frase ‘Vai Malandra’. Era uma de minhas amigas brincando de fazer vídeos em uma dessas redes sociais que acessamos diariamente. Pouco tempo depois, ouvi mais umas duas ou três pessoas falando a mesma coisa e, só depois de alguns dias, eu descobri que se tratava da nova música de Anitta, sendo ela mesma a grande protagonista de um clipe “empoderador”.

Eu preciso, antes de tudo, começar dizendo que o funk nunca foi o meu forte. Esse, definitivamente, é um ritmo que nunca ganhou muito espaço nos meus fones de ouvido, e isso faz de mim uma leiga.

O meu pouco entendimento do funk foi adquirido através dessa crescente onda de MCs que atingiu as paradas de sucesso, emplacando algumas músicas do verão nos últimos anos. Anitta mesmo se esquivando do título de MC, era uma dessas artistas. Mas nem sempre foi assim. A cantora resolveu abandonar a sigla quando conseguiu fechar um contrato com gravadora e estourou com o hit do ‘Show das Poderosas.

Meu primeiro contato com uma das cantoras de maior influência no ramo da música brasileira, atualmente, veio quando ela ainda era “meiga e abusada”, lá nos idos de 2013. De lá para cá, Anitta se comportou como um camaleão. Mudou sua postura diante do mercado para se adaptar aos desejos de consumo de um público ainda carregado de preconceito, afinal de contas, funk sempre foi coisa de favelado. Anitta abraçou o pop. Fez parcerias com cantores de nível internacional, inseriu novos idiomas em suas canções. E vendeu. Vendeu muito.

Em 2017, a cantora anunciou que iria dar um boom na sua carreira com o projeto checkmate. A ideia foi a de lançar um clipe por mês. O intuito? Conquistar os gringos.  E foi exatamente isso que ela fez. Já no mês de setembro, Anitta deu início a sua série de produções musicais. Gravou músicas que, certamente, fariam sucesso com o público latino, pois soube escolher bem suas parcerias. Mas o estopim disso tudo veio aos 45 do segundo tempo, em 2017, com Vai Malandra.

E é exatamente aqui onde surge um grande conflito. Com Vai Malandra, Anitta volta as origens do funk. Volta exatamente para onde tudo começou. E é durante essa volta que Anitta encontra uma grande discussão acerca do feminismo bem no meio do caminho.

Suas parcerias também deram o que falar. Analisou o cenário musical atual e escolheu cada um a dedo. Cantou ao lado de MC Zaac, o famosinho do ‘Vai embrazando’, Maejor, o rapper norte-americano e o DJ Yuri Martins, responsável pelas últimas músicas de funk de sucesso, como produtor musical. De quebra, Anitta ainda apostou em Terry Richardson, diretor envolvido em polêmicas relacionadas a vários casos de assédio sexual.

Para os críticos (de música e de facebook) a ideia do vídeo foi a de retratar o cotidiano da favela, do jeitinho que ele é, com o acréscimo de muito empoderamento feminino. Pensando nisso, a cantora estampa as telas com 8 segundos ininterruptos de uma bunda com celulite. Além de brincar com o bumbum, ela decidiu mostrar para o mundo a prática de muitas mulheres da periferia de se bronzear na laje com fita isolante.

Mas, o curioso, é que o saldo final do clipe acaba também se resumindo ao que vemos em todos os outros clipes de funk: muito peito, muita bunda, e de quebra, um gringo objetificando a mulher brasileira. E o empoderamento? Onde é que ele foi parar?

Anitta replicou o que o movimento feminista mais critica. Usou seu corpo como foco do clipe, expôs mulheres de biquíni, e um montão de marmanjo babando. Embrulhou tudo isso e, mais uma vez, vendeu. Vendeu muito.