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Foto: Netflix/Divulgação

Liberdade pra mim é não ter medo.

Essa frase de Nina Simone poderia ser o prólogo da sua trajetória na vida e na arte. Como artista e como figura humana, ela sempre se atirou de cabeça naquilo que acreditava, defendeu com fervor e paixão tudo que, de alguma forma, a mobilizava – acertando e se equivocando.

O documentário da Netflix, “What Happened, Miss Simone?” (‘O que aconteceu, senhorita Simone? ’, em tradução livre. EUA, 2015. Direção: Liz Garbus) percorre ambas as facetas da artista que é considerada uma verdadeira lenda do jazz e do soul.

Nascida Eunice Kathleen Waymon, na minúscula cidade de Tryon, no estado americano da Carolina do Norte, em uma época particularmente difícil para ser negra e pobre, Nina desbravaria caminhos que seus pares jamais projetariam. Com o sonho de se tornar uma pianista clássica – ela almejava ser a “primeira mulher negra” a assumir esse posto – estudou piano desde os quatro anos de idade e chegou a se graduar na Julliard School, uma prestigiada escola de artes de Nova York.

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Foto: Nina Simone/Divulgação

Mas apesar da sua determinação e do seu talento inconteste, ela foi rejeitada no Curtis Institute of Music, um conservatório de música clássica, por ser negra. Ela jamais se recuperara completamente do baque desse racismo.

Não obstante, depois dessa negativa, a Eunice Kathleen, pianista clássica, abriu espaço para Nina Simone – “Nina” veio de Niña, menina em espanhol, e “Simone” foi uma homenagem à atriz francesa Simone Signoret.

Com esse nome, que entraria para a história da música, ela iniciou sua carreira cantando em bares de Nova York, até que foi “descoberta” e convidada a se apresentar num festival de Jazz. A partir daí, os EUA e o mundo passariam a conhecer a personalidade humana e artística de uma Nina em franca ebulição.

Canções de uma vida

My Baby Just Cares for Me (Meu Bem Só Se Importa Comigo, em tradução livre) foi seu primeiro grande sucesso. Num Jazz suave e deliciosamente cadenciado, Nina desliza seus vocais ao piano numa canção doce e repleta e de referências à cultura popular da época nos EUA. A canção logo se popularizou, alçando a artista ao estrelato.

Ela seguiu uma carreira promissora, colecionando sucessos, conquistando fama, prestígio e dinheiro, mas foi com canções com letras engajadas (ácidas até), que Nina Simone se converteu num ícone máximo – não só da música, mas da luta pelos direitos civis dos negros nos EUA na época de maior tensão e conflito, o início dos anos 60.

UNSPECIFIED - CIRCA 1950: Photo of Nina Simone Photo by Tom Copi/Michael Ochs Archives/Getty Images

Foto: Tom Copi/Michael Ochs Archives/Getty Images

“O nome dessa música é Maldito Mississippi, e eu quero dizer cada palavra!”, é o que bradam, em tradução livre, os primeiros versos de Mississippi Goddam, música composta por Nina sob forte comoção diante da notícia do assassinato de quatro garotinhas negras numa igreja da cidade de Birmingham, que foi explodida em um atentado racista em setembro de 1963.

Foi o início da jornada de ativismo de Nina Simone, que emprestou sua voz e seu prestígio a causa da igualdade racial e da afirmação da cultura negra. Pelo forte conteúdo político e por ter uma palavra que, à época, era considerada uma espécie de palavrão (Goddam), a música foi banida das rádios comerciais, mas foi convertida em hino da resistência da população negra dos EUA contra a segregação.

Canções como To Be Young, Gifted And Black, I Wish I Knew How It Would Feel To Be Free, a versão de Ain’t Got No / I Got Life, do musical vanguardista Hair, reforçaram o forte engajamento de Nina, que chegou a comprometer sua carreira comercial. “Como ser artista e não refletir a época? ”, questionava ela.

Singularidade

Para muito além do viés e do ativismo político, a singularidade artística de Nina, por ser uma pianista por excelência e uma cantora de voz poderosa, com uma cadência e uma sonoridade diferenciadas, que era potencializada com o vigor da sua forma de interpretar as canções, reverberava fortemente.

O filme, “What Happened, Miss Simone?”, segue a estética dos documentários musicais e nos presenteia com algumas das performances mais excepcionais de Nina Simone, como a que ela canta Little Lize Jane, no Festival de Jazz de Newport, em 1960.

Foto: Ron Kroon/Anefo

Foto: Ron Kroon/Anefo

Mais lembrada por hits clássicos como Feeling Good e I Put a Spell on You, Nina rompeu fronteiras e cristalizou seu nome como um dos maiores ícones do Jazz e da história da música. Seu potencial de diluir emocionalmente o público com suas performances viscerais e tecnicamente impecáveis eram algumas das suas marcas.

“Quero abalar tanto as pessoas que quando saírem do lugar onde eu me apresentei estejam em pedaços”, dizia.

Uma cena do filme é simbólica. No concerto em Montreal – Suíça, em 1976, após anos de ostracismo, vemos uma Nina Simone quebrada em pedaços, tentando juntar seus próprios cacos, ver até aonde consegue ir. A força vocal e o vigor artístico ainda estão ali, mas um tanto combalidos.

Como uma fênix negra e imponente, bem ao estilo black woman power, a artista que se engajou em causas políticas, ostentou certo radicalismo, teve uma vida pessoal controvertida – subiu ao céu do estrelato e desceu ao inferno do abandono -, ressurge e mostra ao mundo que ainda está ali e que pode ser força musical que não seca e que transborda à alma de quem a ouve.

Após essa retomada da carreira, Nina Simone seguiu fazendo shows em vários países. Esteve duas vezes no Brasil, em 1988 e em 1997, chegou a gravar uma canção com Maria Bethânia, o single Pronta pra Cantar.  Se manteve ativa até a sua morte, em 2003, vítima de câncer de mama.

O legado musical, cultural, artístico e político que ela deixou permanece vivíssimo, sobretudo quando vemos artistas pop do establishment da indústria cultural subverterem a lógica do mainstream e produzirem álbuns conceituais sobre afirmação da identidade étnica. Miss Simone ficaria feliz e orgulhosa.

Sandro Alves de França
Sobre o autor

É graduado em Letras pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), estudante de Jornalismo da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), professor de Literatura e produtor cultural independente. É também Editor Geral do site sobre cinema Janela 7, repórter e colunista do portal de notícias Paraíba Já.

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