Parecia um sonho. Enfim, a Legião Urbana subia no palco do Espaço Cultural José Lins do Rego, após 24 anos de espera e saudade.

Sou legionário. Não por ter a discografia completa e nem por ostentar uma coleção de biografias. Sou, porque escuto desde que me entendo por gente, porque essas canções fizeram e fazem parte de mim. Sei decorado cada frase, tom e respiração de todas as gravações de estúdio, ao vivo e caseiras. Com toda essa carga emocional e pessoal, resolvi curtir mais um tributo ao grupo, afinal, um legionário sério sabia que não seria um show da Legião Urbana. Não poderia ser sem a presença do Renato.

O concerto começa com a energia de “Será”, a música que abre o álbum homônimo, lançado em 1985, e que é o motivo da turnê: os 30 anos de lançamento do primeiro disco. Olho ao redor e percebo que ali, congregando do mesmo momento histórico, estavam 4 gerações, as chamadas “Baby Boom”, “X”, “Y” e “Z”. Normal. A Legião sempre foi atemporal e nunca fez acepção de pessoas. O curioso é que as gerações se subdividiam em dois outros grupos. Pude perceber pessoas mais velhas, jovens, adolescentes e crianças chorando e cantando cada trecho, mas vi também algumas pessoas, das 4 gerações, participando da celebração com o semblante do inédito, da descoberta.

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Foto: Rafael Passos

A banda começa a tocar “A Dança”, percebo que vão tocar o primeiro álbum na íntegra, o que traz mais ainda um ar de nostalgia. Quantas vezes não ouvi aquele disco no “volume máximo”?!

Marcelo e Dado estavam muito bem no palco.  O que não é surpresa. Recentemente, estive em apresentações dos seus projetos solo. A energia continua a mesma e dessa vez, muito bem acompanhada pelos músicos: Lucas Vasconcellos no baixo, Mauro Berman na guitarra e violão, Roberto Pollo nos teclados e samples e, pelo cantor André Frateschi.

Quando a “Geração Coca-Cola” fez o chão tremer, pôde-se perceber o brilho no olhar de Dado ao ver o público eufórico, então, me despi da presunção do fã chato e congreguei também. No palco, estavam adolescentes tocando uma sequência de 3 acordes, com muita distorção na guitarra, muita crítica ao atual momento político e muita vontade de mudar tudo. Foi como uma viagem no espaço-tempo: uma banda de garotos tocando em uma garagem em Brasília.

Foto: Rafael Passos

Foto: Rafael Passos

Finalizando o primeiro bloco do show, o público fez coro com a música “Por Enquanto”. André, que assumiu os vocais na turnê, quase não precisou cantar, foi um momento para guardar na memória (e na memória dos smartphones).

 Segundo Ato

Após um relato em áudio do que significa a Legião Urbana, começa a segunda parte do show. As luzes mudaram de cor, o público já estava no clímax e o legionário aqui já havia se incorporado à festa.

Perto de mim havia um segurança que permanecia de costas para o palco, carrancudo e indiferente. A banda volta e Dado começa o riff mais conhecido do rock brasileiro. “Tempo Perdido”, além de ser um hino à juventude, é a trilha sonora da vida das pessoas que tiveram seu caráter forjado pelas letras do Renato. Há algo nessas canções que desperta os valores humanos dentro de cada um de nós. Sabe o segurança? Abriu um sorriso, levantou a mão e cantou emocionado: “Todos os dias quando acordo…” Indescritível sensação de verve. Pertencimento. Humanidade. Por outro lado, enquanto curtia o abraço do meu amor, indaguei-me quantas daquelas pessoas que entoaram “Soldados” e “Daniel na Cova dos Leões” sabiam que essas músicas tratam de gênero e sexualidade. Pouco importa. Legião e os olhos dela (castanhos) eram o abraço forte que dizia que estávamos distantes de tudo.

Foto: Rafael Passos

Foto: Rafael Passos

Somos Tão Jovens

Dois jovens artistas participaram do show: Jonnata Doll, cantor cearense, subiu ao palco em uma performance à Renato, vivenciando a repressão e a esperança da canção “1965 (Duas tribos)”. A guitarra puxa “Dezesseis” e no vocal estava a cantora carioca Marina Franco, que nos trouxe uma nova sensação ao ouvirmos a aventura e morte de João Roberto em voz feminina. Ela também dividiu “Meninos e Meninas” com André Frateschi. Foi lindo.

Imagino como deve ter sido difícil a escolha do repertório para um show aguardado por 20 anos. Acho que acertaram a mão. Os hits foram todos tocados e as demais músicas que somaram ao set list, formaram um conjunto coeso, com sentido.

Após o retorno solicitado pelo bis, a banda toca a saga de João de Santo Cristo com um coral de mais de 15 mil vozes. “Faroeste Caboclo”, embora tenha seus 9 minutos de duração, o que contraria a lógica do mercado, é mesmo um hit. “Perfeição” e “Que País é Esse” fecham a noite com uma profecia lançada por Dado: “Esse castelo de cartas marcadas vai ruir… não chega até as olimpíadas! ”. Antes de tocarem a última, com ironia bradaram: “Essa eu quero dedicar… em nome da minha família… pela minha cadelinha Fifí”. Desde 1987 continuamos a perguntar: “Que país é esse?”

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Estive em um show da Legião Urbana. Apesar do meu lado de fã chato insistir em dizer que seria um tributo, eu pude ver o Renato ali. Estava nos olhares, nas memórias e em milhares de vozes. Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá fizeram um grande show em 2016, na cidade de João Pessoa.

Urbana Legio Omnia Vincit – Força Sempre