No último sábado (22), a artista paraibana Cátia de França voltou a se apresentar em João Pessoa, sua terra-natal. Ela já havia vindo à cidade várias outras vezes antes, mas essa teve um sabor especial.  São 20 anos separando essa noite no Teatro Paulo Pontes das demais: foi a primeira vez (em duas décadas), que Cátia de França veio à Paraíba se apresentar com o repertório de um novo álbum, com canções inéditas. O último havia sido o icônico “Avatar”, lançado em 1996.

O tempo, nesse caso, apenas aperfeiçoou e deu mais vigor artístico e autenticidade ao trabalho da cantora e musicista que vive há mais de uma década em São Pedro da Serra, vilarejo de Nova Friburgo, cidade serrana no interior do estado do Rio de Janeiro. Hóspede da Natureza, seu novo álbum, tem muitos elementos que dialogam com a paisagem natural exuberante do lugar onde mora.

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Cátia de França revela em 2016 o resultado de um trabalho que levou uma década para ser lançado. (Foto: Eric Gomes)

Cátia fez o primeiro show da nova turnê em Recife (PE), um dia antes de vir se apresentar em João Pessoa. Hóspede da Natureza foi lançado com apoio do projeto Natura Musical e tem como referência poética de inspiração o livro “Walden ou A Vida nos Bosques”, do escritor canadense Henry David Thoreau, escrito em 1847 e considerado a “bíblia hippie” por exaltar a comunhão com a natureza e o conceito de subsistência com as próprias mãos, o “fazer por si mesmo”, prescindindo do frenesi da indústria.

“Tem tudo. Tem água, tem a história do hóspede, que é do escritor canadense que em 1847 já falava em ecologia, abandona tudo e vai viver no mato. E esse livro tem um apêndice, que é o ‘Desobediência Civil’, que foi o livro que inspirou Gandhi para ele vencer a Inglaterra” explica Cátia sobre o viés simbólico e conceitual do álbum.

“Esse homem (Thoreau) escreveu ‘dois em um’ e atirou no que não viu – e eu sempre me inspiro em livros, então, veio a calhar mesmo”, complementou a artista paraibana que já usou como base para seu trabalho musical a literatura de escritores como João Cabral de Melo Neto, Manoel de Barros e José Lins do Rêgo.

Hóspede da Natureza foi gravado entre 2005 e 2006, no estúdio de Rodrigo Garcia (que integrava a banda de Cássia Eller), em São Pedro da Serra. Cátia se encantou tanto com o lugar que resolveu ficar de vez no bucólico vilarejo da serra fluminense. Após dez anos, o projeto foi resgatado através do Natural Musical e realiza uma turnê de apresentações por todo o Brasil.

O Show em João Pessoa

O Teatro Paulo Pontes ficou cheio, em polvorosa para receber Cátia de França e conhecer seu novo repertório. A noite era para apresentar as canções de Hóspede da Natureza, mas não podiam faltar músicas icônicas como “Avatar”, faixa-título do álbum de 1996, algumas canções de “20 palavras ao redor do sol” (1979), disco de estreia de Cátia com músicas inspiradas em João Cabral de Melo Neto, bem como seus outros trabalhos “Estilhaços” (1980) e “Feliz Demais” (1985).

A integração musical de Cátia com a nova banda, composta por Daniel Cahon (contrabaixo, theremim, samples e vocal) Coquinho (bateria, cajon, zabumba e vocais), Gabriel Policarpo (percussão e vocais), Marcelo Bernardes (sax, clarinete, flauta, pife e vocais) e Wiliam Belle (guitarras e violões), é algo notório. Jovens, mas muito experientes, os músicos atuam em fina sintonia com a artista veterana e trouxeram um novo vigor ao seu trabalho.

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Cátia de França no palco do Teatro Paulo Pontes, no show de lançamento do álbum “Hóspede da Natureza”. O vigor artístico impressiona. (Foto: Thercles Silva/Parahybólica)

A iluminação do show foi preparada com detalhismo e arrojamento. Os refletores projetam luzes de cores e tonalidades que variam e dialogam com a composição visual e a temática da canção que é cantada. Elas se projetam para além do espaço do palco e pairam sutilmente acima da plateia, produzindo uma impressão semelhante à de um céu sob o fenômeno da Aurora Boreal. Tudo é digitalmente controlado por I-Pad, através de um programa de computador.

A cada canção, a emoção vinha aflorada por parte do público. Os mais animados iam para as margens da plateia e dançavam coco, forró ou apenas mexiam o corpo na cadência da música de Cátia.  As participações de Totonho, cantando “Ponta do Seixas”, e Jonathas Pereira Falcão, líder do Seu Pereira e Coletivo 401, foram alguns dos pontos altos do show.

A musicista celebrou a parceria com os artistas da cena contemporânea da música paraibana. “São meus bisnetos”, descontraiu. “Eu vejo Totonho um misto de Tim Maia com Genival Lacerda, é um perigo, ele engravida com os olhos”, brincou ela. “O outro (Jonathas Falcão) é um príncipe, eu conheci em São Paulo, na Virada Cultural”, acrescentou.

Show Cátia de França JP - Participações

Dois momentos marcantes do show de Cátia em João Pessoa: as partcipações dos artistas da cena musical contemporânea na Paraíba, Totonho e Jonathas Pereira Falcão, da banda Seu Pereira e Coletivo 401. (Fotos: Thercles Silva/Parahybólica)

Cátia disse ter ficado feliz e emocionada com o show em João Pessoa e a recepção calorosa do público, que foi uma verdadeira apoteose. “É uma resposta de que eu trilhei o caminho certo. Para que melhor expressão do que o estado em que eu nasci, as pessoas que tem a ver comigo? É muito bom, estar na hora certa com as pessoas certas apoiada pela Natura” destacou ela fazendo referência ao patrocínio que viabilizou o lançamento do álbum e a turnê.

Show Cátia de França JP - Apoteose

Apoteose do público no show de Cátia de França em João Pessoa, no último sábado (22). (Fotos: Thercles Silva/Parahybólica)

Nordeste Psicodélico

Cátia revelou que além da turnê de Hóspede da Natureza, ela está paralelamente em outro projeto, o Nordeste Psicodélico, que reúne nomes da música nordestina que trazem uma proposta alternativa e dialogam com a psicodelia musical.

“Está havendo um movimento de música para levar os olhos do país para o Nordeste, mas o Nordeste Psciodélico é uma releitura de Zé Ramalho, de Ave Sangria, Alceu Valença. Eu estou nesse projeto por causa de ’20 Palavras”, explicou ela fazendo referência ao seu primeiro álbum, 20 palavras ao Redor do Sol, até hoje considerado um trabalho icônico pela ousadia e pioneirismo.

Referências

Um álbum com várias camadas sonoras, com uma proposta telúrica, de evocação e exaltação à natureza, “Hóspede” é fruto da multiferencialidade que Cátia de França incorpora ao seu trabalho musical.

“É muito eu, tudo o que eu ouvi: a ‘sofrência’ a dor de cotovelo, minha mãe ouvia Nora Ney, Lana Bitencourt, papai só ouvia tango. O blues é do meu tempo mesmo, o Jazz, Santana, a Jovem Guarda, eu sou uma soma disso tudo. É um trabalho que abrange essas histórias todas”, concluiu.

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Cátia de França junto da banda e dos cantores Totonho e Joanathas Falcão, ao final do show em João Pessoa, no último sábado. (Foto: Thercles Silva/Parahybólica)