Dentro de um universo steampunk, quase como um profeta de sua própria religião, Monsenhor Lunático é uma persona louca e revolucionária que decidiu desbravar os grooves paraibanos. O grupo formado em 2017, já traz na bagagem maturidade e unidade musical. Uma prova disso é o EP autointitulado lançado no fim do ano passado que conta com quatro faixas que passeiam pela psicodelia travestida em afrobeat, rock industrial, trip hop, rock progressivo e contam a trajetória ideológica do personagem.

A presença visual do projeto é algo notável. Logo no primeiro single do grupo ‘Epístola zero 1’, o trabalho minucioso com a inserção de peças animadas de pinturas clássicas do Lyrics video nos leva ao universo psicodélico do Monsenhor. A identidade visual ficou sob responsabilidade de Rafaela Casado e Daniel Quaresma que traduziram os devaneios da persona.

Da mescla de influências, psicodelias, devaneios e reflexões críticas, nasce a inquieta e perturbadora Monsenhor Lunático. Uma banda e um personagem que despertam o senso coletivo de concordância social, política e cultural.

O Segue o Som bateu um papo com o grupo que estreia nos palcos nessa sexta-feira (26) às 21h na Miragem Casa Cosmopopeia, com abertura do grupo de trip-hop de Rieg na Ladeira da Borborema, 114. Confira:

Gi Ismael/Divulgação | Modificação Segue o Som

Segue o Som – Não há como evitar a pergunta: de onde vem o nome da banda?

Monsenhor Lunático – Assim como inúmeras outras bandas, estávamos com esse grave incômodo que é o de achar um nome. E tinha que ser um nome que transmitisse o que era nosso som, que agradasse a todos os integrantes, que fosse sólido, que tivesse um arcabouço. A sugestão foi de Erick Filho, nosso guitarrista. Ele afirma que estava no meio de uma aula e, do nada, num estalo, veio o insight: Monsieur Lunático.  Achamos melhor deixar “Monsenhor”, como se fosse uma tradução não literal, obviamente, mas cuja sonoridade se aproximasse. Do nome, criamos o personagem e a história dele.

 

SOS – Quem são os membros (nome/instrumento) e como aconteceu a formação de vocês?

MONLUN – Somos cinco. Matheus Pimenta, nos vocais e congas. Bruno Hanover, no contrabaixo. Léo Noronha, nos teclados e sintetizadores. Erick Filho, na guitarra. Max Azevedo, na bateria e backing vocals.

Bruno, Erick e Max já haviam participado de outros projetos juntos e costumavam se reunir eventualmente para ensaiar livremente, tirando um som, fazendo jams. Raunny Souza, que na época, trabalhava com Bruno, descobriu esses ensaios e perguntou se poderia participar de algum desses ensaios tocando teclados. [Um tempo depois Raunny se mudou para São Paulo e Léo foi convidado para substituí-lo]. Logo depois Raunny sugeriu o nome de Matheus para fazer alguns vocais. Tentamos fazer alguns covers no primeiro ensaio mas já surgiu uma vontade de criar algo novo.

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SOS– Do momento do encontro, vocês já decidiram por vir a público com produto musical, o EP de vocês?

MONLUN – Não, não. No início, eram ensaios puramente voltados para jams, para a improvisação, como uma atividade terapêutica para aliviar o estresse. Só que com o tempo percebemos que estávamos sempre criando algo em cada ensaio e que no ensaio seguinte queríamos aperfeiçoar aquela canção que havíamos criado antes. Cada vez algum de nós trazia uma coisa nova para mostrar aos outros, uma base, um riff, uma levada, uma letra. Aí a coisa evoluiu e quando percebemos estávamos com cinco canções prontas e com um outro tanto de canções semi-acabadas. Decidimos que seria interessante registrar esse trabalho e aproveitar o período de efervescência musical.

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SOS – Como foi pensado e o que vocês querem mostrar com o EP?

MONLUN – As canções têm uma ligação entre si. O EP é uma mini ópera-rock, para falar a verdade. Seria a saga do “personagem” Monsenhor Lunático em um dia, vagando pelas ruas e cantando suas observações e epifanias, numa sequência.

Tentamos pensar o EP com uma sonoridade una e homogênea, muito embora as canções sigam estilos não muito específicos. Isso vem de nossa gama gigantesca de referências. Contudo, nossa ideia era a de manter elementos de psicodelia, tendo em vista que a própria saga do personagem tem essa vertente.

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SOS– É perceptível a presença elaborada do trabalho visual da banda, seja no EP ou nas redes sociais. Seria apenas por finalidade comercial?

MONLUN – A gente se preocupa primordialmente com a música. É nosso objetivo. Fazer canções que nos agradem, que nos instiguem, que nos causem furor, que sejam prazerosas de tocar e que tenham um sentido.

Quando decidimos que a banda teria um nome e que valeria a pena nos mostrarmos, pensamos que seria interessante ter uma identidade visual bonita e que o trabalho gráfico poderia, também, ser explorado. A Paraíba é um expoente absurdo de artistas gráficos e achamos que seria aprazível ter a experiência de juntar nossa arte com artes gráficas. Com clipes, vídeos e imagens que tivessem um certo esmero. Ainda, contamos com a assessoria da Vulpi Comunicação Cultural na gestão das redes sociais.

Confessamos que “comercial” não é bem a palavra. A finalidade é puramente artística. É a busca por conectar elementos da música com a das artes gráficas. Em visualizar um cartaz ou um clipe e perceber que o cuidado que tivemos ao conceber e produzir uma canção foi também o cuidado que tivemos ao pensar na divulgação dessas canções.

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SOS – Na apresentação, vocês definem Monsenhor Lunático como o alter ego dos membros. Poderíamos dizer que a banda é uma persona e é isto que vocês querem passar ao público?

MONLUN – Exatamente isto. Pensamos o Monsenhor como um ente que possui vida própria. As músicas são pensadas sob a perspectiva dele. O que o Monsenhor faria, diria, tocaria, pensaria. Como a psicodelia dele reverberaria, travestida em afrobeat, rock industrial, trip hop, rock progressivo?

 

SOS – Nos expliquem um pouco sobre os questionamentos da letra de ‘Epístola zero 1’, que é a primeira música do EP, e o processo de produção do Lyrics video.

MONLUN – A canção é uma crítica à maneira como a fé foi transformada em indústria. Trata da dinâmica entre a “mente cansada” que entrega sua vida à “mente sacana”. Enquanto uma acredita que “a vida vem depois” e entrega tudo que pode para ter isso, a outra “troca o céu por maços de papel pra ouvir e dizer o que se quer saber”. E deixamos claro que não é uma crítica à fé, e sim à mercantilização dela.

Quanto ao vídeo, nosso baixista Bruno trabalha nessa área também e vem capitaneando nossa preocupação com a qualidade da apresentação visual da banda, assim como a maior parte das artes, coordenando a produção da identidade visual, flyers e vídeos. Enquanto a arte do EP foi feita pela Rafaela Casado, o lyrics video foi obra do Daniel Quaresma, que produziu essas colagens de imagens e vídeos de obras clássicas das artes plásticas para encaixar na proposta da canção. Superou – e muito – nossas expectativas.

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SOS – Vocês acreditam que a música de vocês e no contexto geral deve ter um apelo cultural e político, no sentido de que o público ouça e tenha um devaneio?

MONLUN – É essa a ideia. Entendemos que a música pode ser tanto um elemento cultural, como artístico, como de entretenimento, como político. Cabe a quem produz, mas também cabe a quem consome separar e/ou aglutinar esses objetivos. No nosso caso, pretendemos causar um paradoxo entre a viagem psicodélica e a reflexão. Os elementos musicais caminham para riffs e harmonias que nos causem essa viagem e, em contrapartida, queremos dar sentido para as letras. É justamente esse devaneio que você citou.

 

SOS – Para onde segue, a Monsenhor?

MONLUN – Queríamos tocar bastante agora, pra falar a verdade. É o principal objetivo para 2018. Divulgar o EP, participar de festivais, formar parcerias, montar shows com outras bandas, fazer parte da cena e estar plenamente inseridos nela. A gente curte produzir e curte o palco. Cada um de nós possui projetos paralelos e queremos fazer o Monsenhor Lunático presente no circuito de shows da cidade. E por que não expandir para outros estados? Também estamos produzindo continuamente nos ensaios. A cada encontro trazemos algo novo, permanecemos criando. Já possuímos canções prontas para um novo EP e nesse ritmo em breve queremos gravar um álbum, embora não seja a prioridade neste ano.

 

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