[blockquote pull=”” align=”left” attributed_to=”” attributed_to_url=”{{attributed_to_url}}”]Em mim o eterno é música e amor[/blockquote]

Foi com os versos da canção Eterno em Mim que Maria Bethânia abriu Abraçar e Agradecer, show-espetáculo comemorativo aos 50 anos de carreira da Senhora do Engenho, no show que ocorreu no Teatro Guararapes, em Olinda (PE). Depois, emendou com a declamação performática de um poema e em seguida entoou Dona do Dom, do paraibano Chico César, “Eu quero, quero, quero, quero ser sim/ esse serafim de procissão do interior / com as asas de isopor / e as sandálias gastas como gestos de um pastor”.

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Divulgação/Maria Bethânia

No repertório teve espaço para Gita, clássico de Raul Seixas, numa versão emocional e mais cadenciada, sequenciada pela esplêndida A Tua Presença Morena, que energizou ainda mais o show: “A tua presença / entra pelos sete buracos da minha cabeça / A tua presença / pelos olhos, boca, narinas e orelhas / A tua presença / paralisa meu momento em que tudo começa / A tua presença”.

Nossos Momentos veio para trazer emoção e nostalgia derramadas:  “Na hora que o refletor bater / momentos de luz e de nós / momentos de voz e de sonho / momentos de amor que nos fazem felizes / e às vezes nos fazem chorar / Aqui nesse mesmo lugar / o palco e vocês na plateia / nós vamos lembrar momentos legais / Um gesto, uma nota, uma ideia… / Momentos intensos”. Emendada pela performance de um texto de Clarice Lispector, ganhou ainda mais força e vibração poética.

Começaria Tudo Outra Vez, de Gonzaguinha, Gostoso Demais do saudoso Dominguinhos, Bela Mocidade de Donato Alves, Alegria de Arnaldo Antunes e Voz de Mágoa de Dori Caymmi ganharam espaço no repertório e uma releitura muito singular. Dindi do ícone da Bossa Nova Tom Jobim – e que está no seu novo álbum, Meus Quintais –  teve uma interpretação confessional e minimalista, que parecia cantada de uma roda de música na casa de amigos. Você Não Sabe, da dupla Erasmo e Roberto Carlos, ganhou cadência e melodia inigualáveis na voz e performance inconfundíveis de Bethânia

A versão de Tatuagem, de Chico Buarque, cantada logo em seguida, foi de arrepiar todos os pelos e poros do corpo!

Segundo Ato

O show é divido em dois atos. O segundo ato reservou os momentos mais singulares, com a apoteose e o transbordamento emocional tomando conta do Teatro Guararapes. Bethânia iniciou com Tudo de Novo, canção que marca sua parceria com o irmão Caetano Veloso: “Minha mãe, meu pai, meu povo / eis aqui tudo de novo / a mesma grande saudade / a mesma grande vontade / Minha mãe, meu pai, meu povo…”.  Depois emendou com Doce, música que é um verdadeiro prelúdio a Bahia e a um de seus artistas mais notáveis: “Toda palavra linda que a Bahia tem/ de santo, comida e amor / foi o canto de Caymmi que embelezou”.

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Divulgação/Maria Bethânia

Em seguida vieram Eu e Água, também de Caetano, Abraçar e Agradecer de Jerônimo e Vevê Calazans, canção que dá nome ao show comemorativo. Vento de Lá – imbelezô e Folia de Reis, ambas compostas por Roque Ferreira, Mãe Maria de David Nasser e Custódio Mesquita foram outras canções presentes no repertório de Meus Quintais e que integraram a apresentação. Após essas canções um dos momentos mais sublimes do show, Bethânia interpretando o poema Câmara de Ecos, de Wally Salomão:

[blockquote pull=”” align=”left” attributed_to=”” attributed_to_url=”{{attributed_to_url}}”]

Cresci sob um teto sossegado,
meu sonho era um pequenino sonho meu.
Na ciência dos cuidados fui treinado.

Agora, entre meu ser e o ser alheio
a linha de fronteira se rompeu.

[/blockquote]

Eu, a viola e Deus de Rolando Boldrin na voz de Bethânia foi outro momento de beleza artística ímpar. Criação de Chico Lobo e Casa de Caboclo de Paulo Dafilin e Roque Ferreira mantiveram essa tônica. Na sequência a performance do texto Candeeiro, de Carme L. Oliveria. O show segue com Alguma Voz de Dori Caymi e Xavante, composição de Chico Cesar; ambas as músicas fazem parte do novo álbum Meus Quintais. Intercalada a elas o Maracanandé, canto Tupi Guarani, uma referência a cultura dos povos indígenas que é homenageada no novo disco de Bethânia.

Povos do BrasilI de Leandro Fregonesi e Motriz, outra de Caetano, vem em seguida. Logo depois, um dos momentos mais plasticamente belos e emocionantes do show, Bethânia recita Clarice Lispector:  “Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala…”

Maria Bethânia - Divulgação
Divulgação/Maria Bethânia

Viver na Fazenda de Dori Caymi e a romântica e incrivelmente bela Eu Te Desejo Amor, versão de Nelson Motta para a canção do cantor francês Charles Trenet, trouxeram mais sensibilidade apurada, com fecho na interpretação de Sou Eu, de Fernando Pessoa: “Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou. Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma. Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim…”.

Entre poemas, textos e canções interpretados nesse ato, o destaque especial vai para os textos de Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Wally Salomão e para as canções Non, Je Ne Regrette Rien, de Piaf, cantada em francês e depois tendo sua tradução declamada, e Reconvexo, entoada pelo público. Os instrumentais de Carcará, primeiro registro da carreira de Bethânia, também foram um ponto de catarse. Silêncio, de Flávia Venceslau fecha o show. As emoções foram extravasadas, sublimadas pelo magnetismo de Bethânia.

Do início ao fim ela envolve, domina o palco com a força e a beleza da voz inconfundível e uma técnica apurada – precisão vocal e de movimentos. Há uma entrega visceral e uma comunhão entre sentimento, mística, técnica e sinergia com o público. Ela esbanja amor e recebe de volta – e essa troca é o que faz desse espetáculo tão especial. Voltei inebriado de Luz e de muito Amor. É dessa substância, a força que não seca, que o canto de Bethânia move e é movido

“Desça!”

Um incidente ocorrido ao final do show ganhou destaque na mídia. Um fã de Bethânia invadiu o palco e a cumprimentou, curvando-se e lhe estendendo a mão. Ela retribuiu o cumprimento e foi cordial com ele. Não satisfeito o rapaz seguiu no palco, atrapalhando e vilipendiando o show e a performance da artista. De forma educada, mas firme, ele disse para ele que descesse, ao que foi aplaudida pelo público presente. Quem conhece e é fã Bethânia sabe que o palco para ela é território sagrado, onde ela deve reinar plena e soberana, sem nada que macule sua apresentação. Num show especial, que é um espetáculo comemorativo com roteiro e marcações precisas, isso ganha ainda mais relevância. A atitude de Bethânia não foi indelicada, como apontaram alguns. Ela agiu como uma mãe que repreende a traquinagem de um filho, com cordialidade, mas também com firmeza. A vergonha alheia ficou para atitude nonsense do rapaz.

O show

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Divulgação/Maria Bethânia

Trata-se de um espetáculo musical com roteiro e performances marcadas, coreografadas à égide de Bethânia. Ela se dirige diretamente ao público apenas nos momentos de agradecer e de apresentar a banda. O restante do tempo ela está imersa na performance. Músicas ausentes, os clássicos da carreira de Bethânia como Grito de Alerta, Fera Ferida, Negue e a mais recente Carta de Amor, podem causar certa estranheza por não integrarem o repertório do show. No entanto, o roteiro da apresentação é tão redondo e carregado de emoções e símbolos que isso acaba se tornando um detalhe muito secundário. Ladeada pelos músicos, Bethânia canta num tablado de led que projeta imagens que remetem aos simbolismos e temas que as canções ensejam.  O jogo de luzes milimetricamente calculado ajuda a ampliar esse efeito e a imbuir sensorialidade visual. Apesar dos recursos tecnológicos mais arrojadas o clima segue intimista, com a cantora interagindo com eles, mas alicerçada essencialmente na música e na performance. Ela está inteira: afinada, emocional e irretocável.